sábado, 16 de agosto de 2014

Opinião: Indústria da Seca. Quem lucra mais?

O Nordeste brasileiro possui 37 bilhões de metro cúbicos, estocados em cerca de 70 mil represas. A água existe, porém a crise da falta dela vem pela falta de uma política mais coerente no setor de distribuição desses volumes, para as áreas onde são mais afetadas pela estiagem.
Mas, vamos falar da nossa realidade, nordestina, sertaneja, paraibana. Enquanto houver sede, escassez de água, os poderes públicos administrativos (Federal, Estadual e Municipal) vão fartar-se. É que os políticos gostam da ‘falta de água’ porque o problema é bom pra campanha. É a chamada Indústria da Seca, que alimentada pela escassez de água, faz políticos faturarem em cima da inocência do povo sofrido. Essa realidade é inalterável, apenas tem anos que são melhores e outros que são piores, no “negócio da seca”. A seca movimenta o meio político e o comércio das cidades atingidas pela estiagem. Ambos faturam alto com a falta de alimentos para os animais e de água para os moradores.
Há dois anos atrás, a cidade de Princesa Isabel e demais municípios da 11ª região, localizados na mesorregião da Serra do Teixeira, interior da Paraíba, viu os lucros dessa chamada Industria ou Negócio da Seca. Quem não tinha carro-pipa comprou, quem já tinha aumentou o valor do frete, contando também com o uso político na distribuição dos carros-pipa, o que sabemos ser a marca registrada do assistencialismo simples. Pessoas lucraram com a perfuração de poços particulares.
Mas, além do comércio, a classe política em geral é que mais lucra nesse período, como afirmamos anteriormente. Políticos visitam as comunidades e se apresentam como “responsáveis” pelo envio daquela água. Medidas como distribuição de ração também vem sempre associada a um governo. Há sempre o “pai” da criança e esse “pai” ou mentor da boa ação assistencialista ganha a recompensa no agradecimento do povo, que deposita essa confiança na urna. Agricultores relatam com frequência que vereadores se apresentam trazendo carros-pipa, perfurando poços nas comunidades e se utilizam disso para as eleições.
O nosso problema de escassez de água facilitou a política assistencialista, pois o sertanejo está vulnerável, à espera sempre de ações emergenciais. E estas partem dos políticos. A criação de alguns programas como Bolsa Estiagem, Garantia Safra, Programa Duas Águas Uma Terra, Tarifa Verde,Programas que instalam cisternas, barreiros, enfim, até que causam um alívio temporário, mas não resolve o problema. Mantém o agricultor sempre na mão do poder público e essa vantagem só é para quem oferta e não para quem procura.
Enquanto isso, o orçamento do projeto de Transposição não pára de crescer. Nosso dinheiro literalmente vai escorrendo e continuamos sem solução. Na história política dessa transposição podemos perceber que a transposição nada mais é do que uma ilusão. No governo Sarney, o projeto foi dimensionado, projetado com um único eixo e tinha um orçamento estimado em cerca de R$ 2,5 bilhões. Já na gestão de Fernando Henrique, ganhou mais um eixo e acreditaram que R$ 4,5 bilhões resolveriam. No governo Lula, o projeto foi mais bem estruturado, ampliado e propagado. Lula orçou a obra em R$ 6,6 bilhões.
E, agora, no governo Dilma, o projeto da Transposição saltou para R$ 8,3 bilhões. É ou não é uma ilusão? Sei que é um projeto em escala de longo prazo, mas esse prazo vem se alongando demais. E essa conta chegará facilmente à cifra dos R$ 20 bilhões nos próximos 25 a 30 anos. Alguém lembra que no ano passado, a Polícia Federal e a Controladoria Geral da União constataram um desvio de R$ 312 milhões em verbas do Departamento Nacional de Obras contra as Secas (Dnocs),? Esse dinheiro poderia de fato estar sendo utilizado diretamente nas áreas atingidas pela seca, para diminuir o impacto da estiagem.
Mas, mais uma vez, foi para o brejo, ou melhor, para o bolso de algum político, ou alguns políticos, ou quadrilhas, ou máfias, sejam lá que denominação tenha, o fato é que estamos sendo roubados, pela indústria da seca. Assim, o nosso maior problema está nas falhas dessa distribuição, já que somos uma área com grande volume de água represada. Estamos sentindo falta de água, de decisões, de recursos e de políticas honestas.
Por Sabrina Barbosa

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