terça-feira, 5 de setembro de 2017

Joesley Batista, o homem que comprou o Brasil.Conheça a história de Joesley Batista, o empresário que abalou a República, e saiba como ele construiu o maior império global de proteína animal

“Em Goiás, quando tá ruim, tá bom”. A frase é do empresário Joesley Batista, dita à DINHEIRO em uma conversa informal há cerca de cinco anos. O aforismo, analisado sob à luz dos atuais acontecimentos, é quase que uma síntese da situação na qual o Brasil se meteu depois que o dono do frigorífico JBS gravou o presidente Michel Temer em uma conversa comprometedora, no Palácio Jaburu, a residência oficial. Joesley, para usar uma imagem rural, fez um movimento brusco que ajudou a estourar a boiada e, após fazer delação premiada, deixou o País rumo a Nova York, onde pretende morar. Seu paradeiro, no momento, é desconhecido.
O Brasil, por sua vez, foi atropelado pelos bois da JBS e mergulhou em uma grave crise política que abala os alicerces do governo de Temer e está provocando uma paralisia parlamentar que prejudica os esforços empreendidos até agora para a retomada econômica. Em resumo: está ruim para o País, mas está bom para esse goiano de 45 anos, que construiu ao lado de seus irmãos, Wesley Batista e José Batista Júnior (o Júnior do Friboi), a maior empresa de carnes do mundo e a maior companhia privada brasileira, com um faturamento de R$ 170,4 bilhões em 2016.
A delação da JBS surpreendeu a todos por diversos motivos. Por um lado, o teor dos depoimentos de sete delatores mostram a gigantesca rede de influência parlamentar da companhia. Essa teia política irrigada com recursos ilegais os ajudou a conseguir empréstimos e financiamentos de fundos de pensão e bancos públicos, como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Caixa Econômica Federal, donos de 26,24% da JBS .
O ex-diretor de relações institucionais da JBS, Ricardo Saud, um dos delatores, disse ter pago propina a 1.829 políticos eleitos de 28 siglas partidárias – quase a totalidade das 35 agremiações políticas registradas. Nos últimos anos, a empresa teria desembolsado R$ 400 milhões em propinas a políticos, de acordo com Joesley. Em 2014, a JBS doou legalmente R$ 366,8 milhões. Um levantamento realizado pelo jornal O Estado de S. Paulo mostrou que esse dinheiro ajudou a eleger um em cada três deputados e senadores (confira infográfico “Navalha na carne”).
O acordo fechado com a Procuradoria-Geral da República (PGR), por outro lado, foi considerado espantoso, por garantir privilégios inéditos a Joesley e Wesley Batista. Ele foi chamado de “delação megapremiada”, o que tem feito alguns ministros do Supremo Tribunal Federal cogitar a revisão de alguns termos do acordo. Os irmãos, por exemplo, não serão presos ou usarão tornozeleira eletrônica. Seus termos preveem ainda que a dupla não será afastada de suas funções executivas em suas empresas e terá ainda o direito de morar nos Estados Unidos. Os Batista, assim como outros cinco delatores, pagarão uma multa de R$ 225 milhões em dez anos, uma ninharia se comparada ao patrimônio da família. Segundo declarações do Imposto de Renda de pessoas físicas, entregues à PGR, os donos da JBS lucraram R$ 163 milhões em 2016. “Eles sempre foram bom negociadores”, diz uma fonte que conhece os irmãos. “Parece que souberam negociar bem sua delação.”
Os irmãos Batista, de fato, são exímios negociadores. Foi na base da conversa, com seu sotaque caipira de Goiás, em que a concordância verbal e o plural de algumas palavras não são uma prioridade, que eles construíram um império empresarial. É claro que os bilhões do BNDES e de fundos de pensão ajudaram bastante a erguer o conglomerado. A J&F, holding da família, é dona, além da JBS, da fabricante de celulose Eldorado, das empresas de calçados Alpargatas, de laticínios Vigor e de higiene e limpeza Flora, além do Banco Original (leia matéria aqui). Tudo começou em 1953, quando o patriarca José Batista Sobrinho criou uma pequena casa de carnes em Anápolis, em Goiás. Anos depois, Zé Mineiro, como ele é conhecido, foi para Brasília, onde passou a vender carnes para as empreiteiras que construíram a capital federal no governo de Juscelino Kubitschek no fim dos anos 1950.
Joesley passou sua adolescência em Brasília, para onde a família se mudou no fim dos anos 1960. Não era muito chegado aos estudos e dava muito trabalho à Flora, sua mãe. Aos 12 anos, ao contrário de muitos garotos de sua idade, ele resolveu se virar. E não foi na empresa de seu pai. Joesley chegou a trabalhar em lojas de sapatos, de computador, de autopeças e em um hotel. Nessa época, resolveu investir em seu primeiro negócio, usando seus conhecimentos de tecnologia: montou uma escola de informática. Aos 16 anos, seu pai o levou para trabalhar na empresa da família. O primeiro cargo foi o de gerente de um frigorífico com 130 funcionários. Aos 17 anos, já era diretor geral. “Desde cedo tinha vontade de ser alguém na vida”, disse Joesley, em entrevista de 2013, quando foi escolhido o Empreendedor do Ano pela revista DINHEIRO. O prêmio foi concedido em razão da compra da Seara, um negócio de quase R$ 6 bilhões, que dava musculatura para a JBS competir em produtos processados com a BRF, dona das marcas Sadia e Perdigão, no mercado brasileiro.
O fato de começar a trabalhar cedo prejudicou os estudos de Joesley. Ele nunca completou o segundo grau, assim como seu irmão Wesley. Ao contrário de grandes executivos e empresários, que adoram mostrar seus diplomas de graduação, pós-graduação e MBA nas principais universidades americanas e europeias, os dois irmãos nunca fizeram um curso de contabilidade ou de administração. Eles aprenderam a administrar na prática. “Nós aprendemos no serviço e com erros e acertos. Nossa escola foi o dia a dia, foi a necessidade de fazer aquilo dar certo” disse Joesley, em uma entrevista à DINHEIRO. “Meu pai teve a ousadia e a audácia de dar a oportunidade para os filhos de forma a que nós realmente fôssemos responsáveis pelo negócio. Isso faz diferença.”
A falta de estudo nunca foi um problema para Joesley. “O que importa é ter humildade para perguntar e aprender”, disse ele, certa ocasião, à DINHEIRO. “Entre dizer que sabe e dizer que não sabe, prefiro dizer que não sei. Isso me ajudou muito.” Um exemplo dessa atitude foi quando JBS comprou a Swift, em 2007, na primeira grande aquisição internacional da companhia. Havia, no entanto, um problema. Nem Joesley, nem Wesley falavam uma palavra de inglês. Wesley, que virou CEO da operação, mudou-se para os EUA e levou como intérprete Marcos Sampaio, um diretor da JBS no Brasil. “Eu morria de medo do telefone. Quando tocava eu gritava ‘Marco, corre aqui’”, contou Wesley, em uma entrevista à revista piauí. Uma professora de inglês tentou ensinar a Wesley gramática, ao que ele, segundo uma fonte, retrucou. “Não sei gramática nem em português, quero só aprender a falar.” Hoje, a JBS é uma das empresas mais internacionalizadas do Brasil, com presença em 30 países. E, hoje, os irmãos Batista falam fluentemente inglês.
Apesar de não manter nenhuma superstição, hobby e de não torcer por nenhum time de futebol, Joesley tem, ao menos, uma mania. Ele é um colecionador de frases. O dono da JBS anda com papéis em branco no bolso para anotar as suas reflexões e depois passá-las a um caderno simples. “Elas só servem para mim”, disse o empresário, enquanto folheava o caderno a pedido da DINHEIRO, em 2013. São, segundo sua própria definição, ideias e pensamentos “sobre governança e filosofia de vida”. As anotações são uma mistura de lições de gestão, com fórmulas de autoajuda. Elas revelam como funciona a cabeça de Joesley e a maneira como ele gosta de conduzir os negócios. Uma delas era: “Tocar uma empresa é a habilidade de administrar.” Outra: “Não faça coisas para mostrar números. Faça coisas para ganhar dinheiro.” Mais: “Na dúvida, não contrate.” Ou: “Elogie em público e corrija em particular.” Joesley filosofou também sobre a fórmula da felicidade. “A felicidade é igual à realidade sobre expectativa.” Em uma anotação, até o próprio Joesley coraria, diante dos fatos que foram revelados por sua própria delação premiada: “Nunca minta.”
CAMPEÃO NACIONAL Até meados dos anos 2000, a família Batista já era dona de alguns dos mais importantes frigoríficos do Brasil, como o Anglo – o maior de Goiás –, o Bordon e a Swift Armour. Apesar disso, a empresa, que ainda se chamava Friboi, não estava entre as 100 maiores companhias privadas do Brasil. Isso começou a mudar a partir de 2007, logo depois da abertura de capital da empresa, quando passou a se chamar JBS. Foi quando o BNDES, presidido por Luciano Coutinho, passou a investir somas bilionárias na empresa.
Entre 2007 e 2009, o banco aportou R$ 8,1 bilhões em compras de ações, afora R$ 3,9 bilhões em empréstimos. Trata-se de uma soma jamais investida em outra empresa privada brasileira. Era a época da política dos campeões nacionais, capitaneada pela gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Debaixo desse guarda-chuva, cabiam financiamentos subsidiados a multinacionais, socorro a companhias em dificuldades, como Aracruz e Sadia, e o patrocínio de grandes fusões, como a da Oi com a Brasil Telecom.
Agora, sabe-se a razão dessas somas vultosas. Em sua delação, Joesley revelou que exercia influência no BNDES por meio do ex-ministro da Fazenda, Guido Mantega. O empresário contou ainda que pagava como propina uma taxa de 4% do valor de cada contrato aprovado no BNDES, assim como dos aportes financeiros feitos por meio da BNDESPar, o braço do banco que investe em participações de empresas. A favor da JBS, ao menos, está o fato de que é uma empresa que deu certo. Muitas companhias receberam recursos oficiais e ficaram pelo caminho. A Oi, em recuperação judicial, com dívidas de R$ 65 bilhões, assim como o grupo EBX, de Eike Batista, são exemplos do fracasso dessa política.
O dinheiro do banco estatal foi fundamental para a expansão internacional da JBS. A primeira empresa a entrar no cardápio dos Batista foi americana Swift, que enfrentava dificuldades financeiras, comprada por US$ 1,5 bilhão, em 2007. O BNDES entrou com metade desse valor. Um ano depois, com um aporte de R$ 2,6 bilhões do banco estatal, a JBS comprou outra gigante americana de carne: a Smithfield Beef Group. Em 2009, foi a vez de adquirir a combalida Pilgrim’s, maior produtora de frangos dos Estados Unidos. Nessa transação, o banco estatal entrou com US$ 3,5 bilhões, com uma emissão em debêntures conversíveis em ações. Na mesma época, a JBS assumiu o concorrente Bertin, no Brasil, assumindo dívidas de R$ 4 bilhões – o BNDES tinha investimentos de R$ 2,5 bilhões no Bertin e teria forçado o acordo para evitar uma baixa contábil no investimento.
Essas aquisições revelam o estilo da família Batista. Eles em geral compram empresas à beira da falência, com dívidas altas ou com graves problemas de gestão. Quando entram na companhia, o mantra dos empresários é focar no simples e dar grande atenção aos detalhes para recuperá-la. Essa é uma lição que o clã Batista aprendeu com o pai. Em 2007, quando o patriarca da família visitou uma fábrica comprada nos Estados Unidos, ficou escandalizado pela forma como os funcionários desossavam as carnes, deixando muitos pedaços grudados ao osso. Não bastasse isso, eles ainda cortavam de forma errada o couro. A preocupação do patriarca fazia todo sentido: pode sobrar até um quilo de carne em um boi mal desossado.
VIDA LUXUOSA Joesley e Wesley mantêm uma rotina de trabalho dura. Antes da delação premiada, eles chegavam ao escritório que fica na Marginal Pinheiros, em São Paulo, por volta das 7 horas da manhã. Suas jornadas são longas e, não raro, ultrapassam as 12 horas. Ex-funcionários que trabalharam com os dois dizem que ambos são duros na cobrança, mas não levantam a voz e nem fazem escândalos. Joesley e Wesley são como irmãos siameses. Não há relatos de que brigam. Ao contrário. Eles se complementam. Joesley era responsável pelo desenvolvimento de novos negócios e comandava os investimentos nas outras empresas do grupo – sabe-se, agora, que ele fazia o relacionamento nada republicano com os políticos. Wesley tocava a parte operacional da JBS, com total liberdade para tomar decisões. “Um não se metia na área do outro”, diz um ex-funcionário.
Apesar de contar com 260 mil funcionários espalhados pelo mundo, Wesley é extremamente detalhista e atento aos números. “Se quiser perder uma discussão com ele, apresente uma planilha”, afirma uma pessoa que trabalhou com o empresário. De acordo com essa fonte, Wesley chegava a checar todas as despesas dos empregados mais próximos para aprová-las. Apesar disso, se o orçamento estivesse decidido, ele dava total autonomia para o subordinado. Os empregados da JBS o descrevem como simples, companheiro e humilde, a ponto de frequentar o refeitório dos funcionários e sentar lado a lado com quem ele simpatizava. Ele se apresentava, queria saber o nome do interlocutor e a função antes de engatar um longo papo, sempre pautado pelos valores familiares e pela ética nos negócios. Joesley era visto de forma oposta pelos funcionários. Muitos o consideravam arrogante, esnobe e vaidoso.
Uma diferença do estilo dos dois pôde ser observado no casamento de ambos, que aconteceu quase na mesma época, em 2012. O de Joesley foi um acontecimento que movimentou a sociedade paulistana. A apresentadora de tevê Ticiana Villas Boas foi três vezes a Paris, no jatinho particular da família, para experimentar o vestido encomendado à maison Chanel. A festa, que aconteceu nos estacionamentos da JBS, contou com 1,5 mil convidados e teve show de Ivete Sangalo e da dupla sertaneja Bruno & Marrone. Depois de Ticiana jogar seu buquê, Joesley subiu ao palco e avisou que daria uma coisa que as mulheres adoravam, arremessando uma bolsa Chanel cheia de paetês à plateia. Wesley, por sua vez, optou por uma cerimônia luxuosa, mas bem mais simples, para poucos convidados, na Casa Fasano, em São Paulo.
Joesley também é dono de um apartamento em Nova York, num dos pontos mais caros da cidade. É um duplex avaliado em R$ 51 milhões na 5ª avenida, ao lado de pontos turísticos como a Catedral St. Patrick e o Rockefeller Center. Ele também é dono de uma casa em Angra dos Reis, comprada do apresentador de tevê Luciano Huck. Conta ainda com um jato particular e um iate Azimut 100, batizado de “Why Not” (Por que não?), um dos mais luxuosos existentes no Brasil e avaliado em R$ 20 milhões – antes de ir para Nova York, a embarcação, que estava em Santa Catarina, foi enviada para Miami. “Ele gosta de coisas luxuosas para curtir com a família, não para ostentar”, afirma uma pessoa próxima ao empresário.
A luta dos irmãos Batista agora é para manter o seu império de pé. Joesley tem paradeiro desconhecido – rumores indicam que ela possa estar em Denver, no Colorado, onde é a sede da JBS, nos EUA. Wesley está no Brasil negociando um acordo de leniência, uma espécie de delação premiada para empresas. A Procuradoria da República no Distrito Federal está pedindo uma multa de R$ 11,1 bilhões para fechar o acordo. As negociações, até o fechamento dessa edição, prosseguiam. Isso é fundamental para a JBS, que viu seu valor de mercado cair R$ 3,5 bilhões desde que a crise eclodiu, passando a valer R$ 22,4 bilhões. A queda só não foi maior porque as ações subiram 22,5% na quinta-feira 25, por conta de rumores de que estava procurando bancos para vender a Eldorado Celulose, a Alpargatas e a Vigor. Em nota, a J&F negou a informação.
Manter alta a moral dos funcionários é também fundamental para o futuro da JBS. Joesley e Wesley eram considerados lideranças admiradas pelos empregados. À medida que o conteúdo da delação premiada dos irmãos tornou-se pública, uma imensa decepção, somadas à consternação e vergonha, tomou conta da JBS. “As pessoas estão doídas com o que aconteceu e com as mentiras nas quais elas acreditaram”, relata uma fonte à DINHEIRO. A JBS precisou fazer um esforço para demover a ideia de algumas pessoas que colocaram os cargos à disposição por discordar das práticas dos irmãos Batista. O discurso padrão da companhia foi: “você não é conivente com os crimes e não tem nada a ver com tudo o que está sendo revelado. Você trabalha para a JBS e não para o Wesley.” É o esforço para que aquilo que ficou ruim em Goiás não fique ruim para todo mundo – inclusive para a JBS.

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